CARTOGRAFIAS II

“A arte participativa recorda-nos de que estamos vivos e de que as nossas vidas são importantes. (…) [C]ria um espaço onde todos podem falar e ser ouvidos, onde dor e esperança podem ser partilhadas, onde é possível chegar a consensos e encontrar formas de trabalhar em conjunto, onde a criatividade e empatia podem encontrar melhores formas de viver. Potencialmente, tudo isto torna a arte participativa mais pertinente em locais demasiado pequenos ou fracos para serem notados pelas forças do poder. Para comunidades que se encontram cada vez mais entregues à sua própria mercê, a arte participativa – e particularmente a arte comunitária – pode ser uma ferramenta importante para a construção de um futuro melhor.” François Matarasso*

CARTOGRAFIAS II – o primeiro amor” tem como cerne dramatúrgico e criativo um texto teatral sobre uma história de amor ficcional passada entre os anos 60 e 70 na Covilhã. Este texto foi escrito por Fernando Paiva, um dos participantes do Laboratório de Artes Performativas Sénior, e surgiu como proposta de trabalho com o grupo na segunda fase do laboratório, em 2019. O entusiasmo do grupo pelo tema do texto e o facto de este integrar matérias que estávamos a abordar, determinou que se constituísse como base deste espetáculo.

Nesta temporada de laboratório propusemos-mos a realizar uma pesquisa sobre Identidade(s) ligada(s) ao concelho da Covilhã e seu território, tendo como epígrafe “Cartografias – do interior para o exterior e vice-versa”. Depois de um primeiro momento de trabalho debruçados sobre narrativas autobiográficas, explorar um texto de natureza teatral constituiu-se como um duplo desafio que aliou a prática performativa ao exercício da memória. Ensaiar e memorizar o texto – esse árduo requisito dos atores – conduzia inevitavelmente à lembrança de episódios vividos. Estes episódios, marcados por contextos político-sociais algo distantes da atualidade, surgiam frequentemente durante os ensaios, paravam tudo e pediam para ser contados. As vidas criavam pontos de contacto e tensão com a ficção e reclamavam para si a cena naquele mesmo instante.

Chegámos assim à dramaturgia híbrida de “CARTOGRAFIAS II – o primeiro amor“, que integra momentos decorridos no processo de ensaios, testemunhos dos participantes e uma história de amor ficcional alimentada pelo período de grandes conturbações políticas e sociais e pela cultura pop (música, cinema, literatura, bailes, entre outros) do Portugal dos anos 60 e 70.

“CARTOGRAFIAS II – o primeiro amor” nunca poderá ser considerado como um objeto isolado, mas sempre como um processo contínuo de formação e criação artística em coletivo que se faz da síntese das disponibilidades, perseverança e vontades individuais e, também, de uma forte convicção na humanidade das palavras de Samuel Beckett: “Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.” *

* Matarasso, François, Uma Arte Irrequieta: Reflexões sobre o triunfo e importância da prática participativa, Trad. Isabel Lucena, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2019, p.29-31.

** Beckett, Samuel, Últimos Trabalhos de Samuel Beckett, Trad. Miguel Esteves Cardoso, O Independente/Assírio & Alvim, Lisboa, 1996.

Interpretação e Cocriação Ana da Conceição Ribeiro, Amália Silva, António Marchão, Conceição Cipriano, Arminda Ramos, Dina Correia, Fernanda Lourenço, Fernando Paiva, Hemitério Guerreiro, Ilda Ribeiro, José Carvalho, Leontina Guerreiro, Maria Augusta Mineiro, Maria do Céu Marchão, Maria do Céu Moita, Maria do Céu Tavares, Maria Otília Silva |  Direção artística Sílvia Pinto Ferreira | Texto original Fernando Paiva | Espaço Cénico, adereços e imagem Joana Martinho Marques | Paisagem sonora Defski (inclui excertos da versão Kontakt da “Samplephonics Deep Textures” | Desenho de Luz Carlos Arroja

 

aprox. 60 min . M/6 . teatro

 

Estreia 16.novembro.2019 / Auditório do Teatro das Beiras

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